FÉ & RAZÃO

POR DANIEL SANTOS


Porque, quem compreendeu a mente do Senhor? ou quem foi seu conselheiro?" Romanos 11:34



Fonte: FÉ E RAZÃO COM O ESCRITOR ÉZIO LUIZ  https://youtu.be/zvySBp-Ex8s

Já percebeu, que a fé sem a razão, eu posso fazer o que eu bem entender; e uma multidão de pessoas fará dos meus pensamentos a genuína revelação?


“O fato de que a mente do homem é decaída não nos pode servir de desculpa para batermos em retirada, passando do pensamento à emoção, já que o lado emocional da natureza humana está igualmente decaído. De fato, o pecado traz mais efeitos perigosos à nossa faculdade de sentir do que à nossa faculdade de pensar, porque nossas opiniões são mais facilmente controladas e reguladas pela verdade revelada do que nossas experiências” (John Stott).

Realmente, Stott foi feliz em sua tese. Todo grupo eclesiástico que intrinsecamente antagonizou a fé e a razão, oscilaram em suas bases institucionais; estão frequentemente atualizando seus métodos litúrgicos, e como sempre, regredindo.

Costumamos rotular o patriarca Abraão como o pai da fé. A fé abraâmica, por mais que ela emane de Deus, era racional; ele não era um fideísta (vide Kierkegaard). Ciente da soberania do Deus de seu “pai” Sem, (filho de Noé) e impulsionado pelo Espírito, sua fé o fez compreender que O Senhor seria consigo em todo tempo.
Embora muitos preletores insinuam que Abraão "deu um tiro no escuro", contextualmente podemos garantir que não foi bem assim que aconteceu.

Moisés, o grande lider e cientista egípcio (por formação) nos deu um grande exemplo de fé racional.
Na "ciência do fogo”, matéria que ele provavelmente teria estudado na universidade, não havia sido pontuado por parte de seus professores a respeito de madeiras que seriam ignífugas (imunes ao fogo).
Racionalmente ele entendeu que aquele fenômeno se tratava de uma operação divina. É normal biblicamente associar fogo com a presença de Deus; Ex.13:22, Nm.11:3, Dt.4:15, 1Rs.18:38, At.2:3. Não poder explicar o fenômeno, não me impede de julga-lo racionalmente, se na verdade é Santo ou não. Este é o fulcro da questão; quando um grupo retira a razão entra a "revelação". De quem?
Da liderança do grupo! Não é mais a palavra de Deus, porque ela também é tida como razão. Predominando assim a suposta iluminação do guru.

Em todo o velho testamento temos fé e razão trabalhando de mãos dadas.

Já no novo testamento, o próprio Cristo impulsionava o homem a pensar por si mesmo. A igreja dá continuidade com os apóstolos. Poderíamos citar inúmeras passagens em que os apóstolos arrazoavam com o povo, com os fariseus nas ruas e sinagogas. Pra ser sucinto, só o Concílio de Jerusalém em Atos 15 já nos satisfaz. Por incrível que pareça, não houve nenhum manifesto sobrenatural para definir as primeiras doutrinas da igreja, para o pavor dos pseudos-espirituais de hoje.

A era apostólica passou e a igreja continuou em sua árdua caminhada…

Agora, precisamos fechar o cânon. O Senhor inquieta a igreja permitindo que hereges se infiltrem no meio dos seus servos, ou seja, o Espírito leva-os à originalidade doutrinária. Sem contar que até o presente século tem gente alterando o cânon com suas novas inferências.

Neste ínterim surgem alguns indivíduos que se perseveram em trabalhar a questão fé - razão. Entenderam, (os pais) que para provar o espiritual era-lhes necessário o filtro da razão; senão as heresias poderiam sutilmente destruir as bases eclesiológicas. Deus usando novamente a razão humana!
Houveram muitos que abraçaram a causa, porém citarei alguns conhecidos;

Clemente, (II) diz que a concordância da fé (pistis) com o conhecimento (gnosis) que faz o perfeito cristão e o fiel. A fé é o princípio e o fundamento da filosofia (razão). Esta, por seu turno, Clemente dá máxima importância para o cristão desejoso de aprofundar no conteúdo de sua fé por meio da razão" (Harmonia entre fé e razão).

Hermas, (II) em seu escrito (O Pastor) insiste que os cristãos têm que refletir nos conceitos que devem penetrá-los. (Paulus)

Atanásio (IV) afirma que seria fácil refutar as teses heréticas segundo as divinas Escrituras e segundo a própria razão humana, graças à qual eles imaginaram essas loucuras, isto é, fé e razão são suficientes de destruírem a "razão" equivocada dos hereges. (Paulus)

Agostinho nos traz algo enriquecedor; em suas confissões ao Eterno diz ele: Tu sabes, Senhor, meu Deus, como sem ajuda de mestre, aprendi tudo o que li, quanto às leis da retórica, da dialética, da geometria, da música e da matemática, porque também a vivacidade da inteligência e a agudeza da intuição são dons teus. Pra quem diz que a razão é do diabo, não acredita que o cérebro fora plano de Deus.

Avançando mais um pouco, temos Alberto Magno, (Xll) com sua tese primordial; alegando que o filósofo e o teólogo se ocupam ambos de Deus, mas com perspectivas diversas: na perspectiva filosófica conta apenas a razão, enquanto na fé se vai além da razão, e às entendemos; na filosofia as premissas devem ser evidentes; na fé, ao contrário, age a inspiração divina.
As diferenças parte dos dados de fato, a fé parte da revelação; a filosofia entre perspectiva exercita uma visão teórica e destacada das coisas, a fé implica envolvimento afetivo; por fim, a fé pode atingir a verdade que a filosofia não alcança. lsto depende do fato de que o teólogo se serve da razão superior que alcança não as coisas, mas as causas eternas das coisas; a razão inferior, própria do filósofo, se detém, ao contrário, nas coisas. A primeira razão - da qual Agostinho é mestre - leva a sabedoria, a segunda - da qual Aristóteles é o intérprete máximo - leva a ciência. Em outras palavras, a razão inferior (humana) submissa à razão superior (de Deus) é fundamentalmente saudável.

E não poderíamos deixar de lado gigante Tomás de Aquino (XIII).
A intenção de fundo de Tomás foi a de delimitar a autonomia da razão e, desse modo, também da filosofia. Simultaneamente, foi também a de conciliar a razão com a fé; por um lado, mostrando que as verdades da razão não contradizem, mas suportam as verdades da fé e, mostrando que as verdades da razão levam a resultados que precisam ser integrados as verdades da fé, se quisermos que os problemas mais urgentes e profundos do homem tenham solução satisfatória. (Paulus)

O grande mestre de Hochheim, Eckhart disse: Tudo aquilo que existe, existe por obra do Ser divino, que "ama necessariamente". 
Assim, as coisas e o próprio homem, sem Deus, são nada. Essa é a razão pela qual o homem deve voltar-se para Deus: somente retornando a Deus, que o homem encontrará a si mesmo. E nós "captamos Deus na alma, que possui uma gota da razão, uma centelha, um germe". 
Novamente, é a razão que deve ser capturada por Deus e se aprofundar nele. Mas, para tanto, o homem deve tornar-se um espírito livre: "Espírito livre é aquele que não se preocupa com nada e a nada se liga, não se vincula de modo algum ao seu interesse e não pensa em si mesmo nem em nada, já que se aprofunda na amantíssima vontade de Deus, renunciando a própria vontade".


A solução de Agostinho, para usar uma expressão da teoria gnosiológica moderna, e um "círculo hermenêutico": este significa que todo conhecimento pressupõe pré-conhecimentos apreendidos por outro caminho, que podem depois ser confirmados, desmentidos ou modificados. 
A fé é portanto, um pré-conhecimento em relação a razão (credo ut intelligam); mas a razão depois pode e deve transpor criticamente as verdades de fé (intelligo ut credam).

De acordo com o conceito mais simples dela, a fé é uma confiança pessoal em Deus. Isto implica que o indivíduo veio a conhecer Deus em algum grau de real experiência. Nem todos os homens possuem fé, pois assim o apóstolo Paulo declara (2 Ts 3.2). Assim, por detrás está este fator determinante: o conhecimento de Deus. A respeito do conhecimento pessoal de Deus, Cristo disse: "Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece plenamente o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece plenamente o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar" (Mt 11.27). Esta afirmação é decisiva. Ninguém conhece o Pai senão o Filho e aqueles unicamente a quem o Filho pode revelá-lo. Contudo, com esse conhecimento de Deus divinamente trazido em vista, o convite é imediatamente estendido por este contexto para todos os cansados e oprimidos para virem a Ele e ali, e ali somente, encontrar descanso para a alma. 

Visto que Deus não é plenamente discernido pelos sentidos humanos, é fácil para o homem natural num dia da graça tratar a pessoa de Deus e todas as Suas reivindicações como se elas não existissem ou, ao menos, como se fossem uma ficção inocente. Adequadamente a fé é declarada ser, em um aspecto, "o dom de Deus" (Ef 2.8). A ausência total de fé é a condição dos homens não-regenerados (1 Co 2.14) até que Deus lhes seja revelado pelo Filho através do Espírito. A seguinte citação da International Standard Bible Encyclopedia afirma os simples fatos a respeito da fé que é uma confiança em Deus: Ê importante observar que Hebreus 11.1 não é exceção à regra que "fé" normalmente significa "confiança", "certeza". Ali "fé é a convicção [ou possivelmente, à luz de recentes pesquisas no tipo de grego usado pelos escritores do Novo Testamento, 'a garantia'] das coisas que não se vêem". Isto é algumas vezes interpretado como se a fé, na visão do escritor, fosse, por assim dizer, uma faculdade de segunda visão, uma intuição misteriosa no mundo espiritual. Mas o capítulo mostra amplamente que a fé ilustrada por Abraão, Moisés e Raabe, era simplesmente confiança no Deus conhecido como digno de confiança. Tal confiança capacitava o crente a tratar o futuro como presente e o invisível como visto. Em resumo, a frase aqui, "fé é a certeza" etc, é paralela na forma ao nosso dito familiar, "conhecimento é poder". Umas poucas observações destacadas podem ser acrescentadas: (a) A história do uso da palavra grega pistis é instrutiva. Na LXX ela normalmente, quando não sempre, porta o sentido "passivo", "fidelidade", "boa fé", enquanto que no grego clássico não raramente ela porta o sentido ativo, "confiança".

No koinê, o tipo de grego universalmente usado na era cristã, parece ter adotado o significado ativo como o princípio dominante somente a tempo de, por assim dizer, proporcioná-lo para a declaração daquele cuja mensagem suprema era "dependência", e que passou essa mensagem aos Seus apóstolos. Através de seus lábios e pena, a "fé", nesse sentido, tornou-se a senha suprema do cristianismo... Como conclusão, sem transgredir pela razão outros artigos, chamamos a atenção do leitor para seus estudos escriturísticos, para o lugar central da fé no cristianismo, e sua importância. Por ser, em sua verdadeira ideia, uma dependência tão simples quanto possível da palavra, poder, amor, de outro, é exatamente aquilo que, do lado do homem, o ajusta à presença viva misericordiosa e à ação de um Deus em que se confia. Em sua natureza, não por qualquer mero arranjo arbitrário, ela é a sua única atitude receptiva possível, em que ele nada traz, de forma que ele pode receber tudo. Assim, "fé" é o nosso lado da união com Cristo. E assim ela é o nosso meio de possuir todos os Seus benefícios, perdão, justificação, purificação, vida, paz e glória.
Em seu uso mais amplo, a palavra fé apresenta ao menos quatro ideias variadas: 

(1) Como acima, ela pode ser uma confiança pessoal em Deus. Este é o aspecto mais comum de fé que pode ser subdividido em três aspectos: 

(a) Fé salvadora, que é a confiança entretecida nas promessas e nas provisões de Deus a respeito do Salvador que faz o eleito repousar e confiar no Único que pode salvar.
(b) Fé que serve, que contempla como verdadeiro o fato dos dons divinamente concedidos e todos os detalhes a respeito da designação divina para o serviço. Esta fé é sempre uma questão pessoal, e assim um crente não deveria se tornar um padrão para outro. Esta fé com sua característica pessoal pode ser mantida inviolada, pois o apóstolo Paulo diz: "A fé que tens, guarda-a contigo mesmo diante de Deus" (Rm 14.22). Grande prejuízo pode vir se um cristão imita outro em questões de designação para o serviço.
(c) A fé santificante ou mantenedora, que segura o poder de Deus para a vida diária de uma pessoa. E esta vida vivida na dependência de Deus, que opera um novo princípio de vida (Rm 6.4). O justificado, por ter se tornado o que é pela fé, deve continuar no mesmo princípio de total dependência de Deus. 

(2) Ela pode também ser um anúncio doutrinário ou um credo que é algumas vezes conhecido como a fé. Cristo propôs esta questão: "Contudo, quando vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?" (Lc 18.8; cf. Rm 1.5; 1 Co 16.13; 2 Co 13.5; Cl 1.23; 2.7; Tt 1.13; Jd 3). 

(3) Ela pode significar fidelidade, o que implica que o crente é fiel para com Deus. Aqui é uma característica divinamente implantada, porque ela aparece como uma das nove graças que juntamente compõem o fruto do Espírito (Gl 5.22,23). 

(4) Ela pode provar um título pertencente a Cristo, como em Gálatas 3.23,25, onde Cristo é visto como o objeto da fé. 
Embora a fé, basicamente considerada, deva ser divinamente implantada, ela é sempre crescente como o conhecimento de Deus e a experiência em Sua companhia também crescem. É natural para Deus não se agradar daqueles que não confiam nEle (Hb 11.6). A fé, na verdade, vindica o caráter de Deus e libera o Seu braço para agir a favor daqueles que nele confiam. Assim, por causa das riquezas celestiais que a dependência dele assegura, é chamada por Pedro uma vez de "fé preciosa" (2 Pe 1.1). 
(Teologia Sistemática / Lewis Sperry Chafer; tradução Heber Carlos de Campos. - São Paulo: Hagnos, 2003.)

Que Deus nos abençoe!

Imagem: https://goo.gl/images/vBh6rY


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