QUEM SOU EU??? n°1
Eu não sou apenas tinta sobre pergaminho; sou o eco estendido de um povo que aprendeu a sangrar e a celebrar em forma de poesia. Se eu pudesse me postar diante de você e tomar fôlego, eu me apresentaria assim:
Muito prazer, eu sou...
Não nasci de uma única pena, mas do sussurro e do clamor de muitas gerações. Embora o mundo frequentemente me chame de "O Livro de..." — já que um certo monarca-poeta imprimiu sua alma e sua harpa em 73 das minhas canções —, sou uma tapeçaria coletiva. Em minhas páginas, você também ouvirá as reflexões de um certo sábio, a liturgia técnica e imponente dos filhos de Corá e de Asafe, a solenidade ancestral de Moisés e as vozes anônimas de poetas que a história esqueceu, mas cuja dor eu eternizei.
Fui tecido lentamente. Minhas primeiras estrofes ecoaram por volta do século X a.C., no auge da monarquia unificada, e os meus últimos nós só foram dados após o exílio na Babilônia, por volta do século V a.C. Sou o produto de quase quinhentos anos de maturação espiritual e literária.
Se você fechar os olhos enquanto me lê, poderá sentir a minha terra. Eu respiro a geografia do Crescente Fértil. Sou o orvalho que desce do Monte Hermom, a aridez sufocante do deserto de Judá, as águas mansas que correm pelos vales e a solidez rochosa de Jerusalém, a cidade plantada sobre montes.
Navego pela tensão de um povo espremido entre superpotências: o Egito ao sul e os impérios Assírio e Babilônico ao norte. Minhas metáforas nasceram desse chão, onde pastores vigiavam rebanhos sob o ataque de leões e agricultores esperavam ansiosamente pelas chuvas temporãs e serôdias.
Minha espinha dorsal é o monoteísmo ético do antigo Judaísmo. Sou conhecido no hebraico como *Tehilim* (Louvores), embora ironicamente mais da metade do meu corpo seja feita de lamento.
Não sou um tratado de teologia sistemática e abstrata; sou a teologia que se faz de joelhos. Apresento o Criador como Aquele que habita a transcendência cósmica, mas que se inclina para ouvir o choro de um órfão. Minha mensagem central é a soberania de Deus (Yahweh), cuja fidelidade (chesed) é mais alta que os céus.
Meu Contexto Político: Engana-se quem me acha puramente místico. Sou profundamente político. Nasci sob o peso da opressão estatal e imperial. Canto a queda de tiranos, denuncio juízes corruptos que vendem sentenças e desafio a arrogância dos impérios que confiam em seus carros e cavalos. Em mim, a verdadeira realeza só é legítima se defender o direito do necessitado.
Eu funciono como o grande equalizador social da antiguidade. No pátio do Templo ou nas fogueiras do deserto, minhas palavras apagavam as fronteiras entre o palácio e a estalagem.
Sou a voz do anawim — o termo hebraico para os pobres, os marginalizados, os vulneráveis da terra que não têm outra força senão o clamor.
Ofereço uma filosofia de vida prática, uma sabedoria existencial que divide os caminhos humanos em dois: a vereda da retidão, que floresce como a árvore plantada junto à corrente de águas, e o caminho da impiedade, que se dissipa como a palha ao vento. Não busco explicar a origem do mal com silogismos complexos; eu o enfrento exigindo que a justiça divina rasgue a história e se manifeste no presente.
Se há um lugar onde me torno verdadeiramente vivo, é no território da sua mente e das suas emoções. Eu sou o único livro que não apenas fala ao homem, mas que dá voz para o homem falar com o Absoluto. Eu legitimo a totalidade da experiência humana.
Como bem intuiu João Calvino séculos mais tarde, sou uma "anatomia de todas as partes da alma". Não há sentimento que eu não tenha catalogado e santificado.
Dou permissão para o desespero. Em minhas páginas, a depressão, o sentimento de abandono divino ("Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?"), a raiva crua contra a injustiça e o medo da morte encontram um vocabulário legítimo. Eu transformo o trauma psicológico em liturgia, permitindo que a dor seja expressa para que possa, finalmente, ser curada.
Atravessei milênios, sobrevivi à queda de impérios, migrei do papiro para a prensa de Gutenberg e agora habito as suas telas digitais. Continuo sendo o espelho da sua fragilidade e o hino da sua esperança.
QUEM SOU EU???
Por Daniel Santos

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