O MUNDANO MUNDO GOSPEL




Portanto, qualquer que queira ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus (Tg 4.4).


A amizade é uma das experiências humanas mais sublimes, fundamentada na ressonância de interesses e no prazer da reciprocidade. No entanto, o que no campo das relações humanas é uma virtude, no campo da espiritualidade cristã pode tornar-se um diagnóstico de apostasia. A Epístola de Tiago, ao tratar da "amizade com o mundo" (kosmos), não estabelece um código de condutas meramente externas, mas expõe a raiz dos afetos humanos. A questão central não reside apenas no que se faz, mas no que se ama e com o que o indivíduo se identifica, revelando que a verdadeira regeneração exige uma ruptura estética e ética com o sistema de valores vigente.


A análise exegética do termo kosmos na perspectiva de Tiago direciona o leitor para o "mundo social" — um sistema organizado de valores, ambições e vaidades que opera de forma autônoma e contrária à vontade divina. Tiago não impõe uma exigência direta aos ímpios, pois compreende que a natureza não regenerada é incapaz de discernir a gravidade dessa amizade. O perigo, portanto, reside naqueles que professam a fé, mas mantêm o "paladar" voltado para as glórias mundanas. A amizade pressupõe afeto e paixão; logo, ser "amigo do mundo" é encontrar prazer naquilo que o mundo idolatra.


Um exemplo latente dessa problemática é a facilidade com que a cristandade contemporânea absorve figuras do entretenimento mundano. O fenômeno da "cristianização" de letras musicais permite que artistas mantenham sua essência vaidosa, luxuosa e egoísta, enquanto recebem o selo de aprovação das comunidades religiosas. Essa frivolidade institucional demonstra uma incapacidade de detectar a ausência de regeneração. Se o caráter de um discípulo — que deveria ser marcado pela humildade e pelo desprendimento — é substituído pelo brilho da avareza e pelo culto à imagem, a regeneração torna-se um mero acessório retórico, e não uma realidade ontológica.


Em suma, a amizade com o mundo é uma questão de inclinação do coração. A natureza regenerada não apenas "vê" o mundo, mas desenvolve por ele um desprezo santo em relação aos seus interesses egoicos. Enquanto a cristandade se contentar com discursos religiosos desprovidos de mudança de essência, ela continuará a ser seduzida por formas de "piedade" que preservam o luxo e a vaidade do kosmos. A verdadeira espiritualidade, conforme delineada por Tiago, exige que a onda de prazer que nos arrebata não seja aquela produzida pelo alinhamento com o sistema social, mas pela conformidade com a natureza de Cristo, que é o único sinal inequívoco de um discípulo real.


Por Daniel Santos 

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