QUEM SÃO OS SAMARITANOS?




Lucas: 10.36-37 Qual, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores? E ele disse: O que usou de misericórdia para com ele. Disse, pois, Jesus: Vai, e faze da mesma maneira.


Não é nova a discussão entre os intérpretes da bíblia a respeito desse bom samaritano. A fim de poupar o teu tempo, vou ser direto. Temos especificamente dois grupos. Um grupo alega ser aplicado a Jesus, pois é uma forma de elogiar a Cristo pelo seu ato remidor e ao mesmo tempo livrar-se da responsabilidade de socorrer o oprimido. Quem opta por essa interpretação, preza pelo capital, a prioridade são os interesses da instituição; esse grupo reune-se em templos suntuosos, prima pela aparência e ocupa a maior parte do seu tempo atuando como o “Sacerdote” e o “Levita” caracterizado pela parábola. Já o outro grupo, afirma ser cada um de nós, que ao receber essa missão de Jesus, cumpre o papel designado pelo Mestre. Veja que no contexto maior, O Mestre termina a parábola com o imperativo: Vai, e faze da mesma maneira. Pelo fato de Jesus ter feito, agora é a nossa vez de imitá-lo. 

Direta ou indiretamente, este assunto traz à lume a discussão entre teologia e ação social. Tanto o tradicionalismo quanto a Teologia da Missão Integral, precisam entrar num acordo. Lógico, que esse acordo nunca será lavrado; as ideologias não o permitirão. Enquanto um explora legalmente o rebanho; o outro faz do evangelho uma espécie de Centro Social Religioso. O equilíbrio é fundamental; e a solução é extremamente simples: todo socorro prestado a um carente, o Evangelho vai no pacote. O Evangelho transforma, dignifica o indivíduo; nenhum salvo tem prazer em ser pesado aos irmãos. A assistência conduzida por uma boa e responsável administração tem poder de fazer do ajudado de hoje um potencial ajudador no amanhã.

Pois bem, feita a nossa breve abertura, vamos caminhar. 

A parábola é a resposta a um doutor da lei (v.25); onde ele questiona a respeito do próximo que deve ser amado. Jesus, como sempre, vai além; o Mestre trabalha a sua metáfora lançando mão de: uma vítima da violência social; dois religiosos ocupadíssimos (sacerdote e o levita) e um samaritano altruísta. Opa! Já temos aqui a nossa primeira lição: o amor é altruísta. Não existe amor ao próximo se eu não tenho o interesse pelo bem estar do amado. Você deve ter percebido que estamos vivendo em tempos frios, onde o próximo não é o fim em si mesmo, mas um meio pelo qual eu alcanço os meus interesses. 

Recentemente, um irmão de fé, me procurou reclamando da mudança de trato que ele sofreu ao sair de uma denominação “cristã”. Enquanto ele prestava os seus serviços na comunidade, recebia mensagens (via whatsapp), um sorriso no rosto e até mesmo jantares. Hoje, a relação da liderança para este dissidente perdeu totalmente a cor. Veja, estou falando de uma comunidade cristã, não se trata de uma seita evangélica, pois os sectários são muito mais cruéis. Geralmente, é esta a frustração que um ex membro de sistema passa. A relação de um crente com uma denominação religiosa tem que ser a mesma que há entre o trabalhador e sua ferramenta. Um exemplo: eu trabalho no ramo da construção civil; quando as minhas ferramentas não cumprem mais o papel pelo qual elas foram criadas, eu as dispenso. Quando uma instituição religiosa não está mais a serviço do IDE, e sim, para suprir os interesses do dono ou da cúpula administrativa, tem que ser denunciada e dispensada! Altruísmo é atender as carências do rebanho e não explorá-lo a fim de se beneficiar.

Josefo nos conta que a estrada de Jerusalém a Jericó era desolada e pedregosa, infestada de assaltantes beduínos (Guerras dos Judeus, IV.8.3). Vale fazermos um comparativo com a realidade da nossa estrada hoje. Dia após dia encontramos pessoas nesta situação. No caso do texto bíblico, era físico; nos dias atuais, mental. 

A sociedade está doente; os suicídios estão subindo a cada dia, os fabricantes de antidepressivos estão faturando milhões de dólares e o grupo que chamamos de igreja, estão também entrando no mesmo ritmo. Conheço dezenas de pastores e membros que usam os seus ministérios apenas como terapia, perdeu-se o sentido último que é pregar, discipular e estender as mãos às necessidades do que padecem. Estão como o sacerdote e o levita, ansiosos com as liturgias, com o seminário, com as programações semanais, com o jantar de casais, com as evangelizações institucionais e com as mais variadas preocupações. Estão buscando a cura para os outros adoecendo a si próprios, melhor dizendo, uma espécie de “Mito de Sísifo Religioso”: 

"Sísifo, segundo a mitologia grega, era rei de Corinto. Ele enganou Hades, induzindo-o a pensar que o trouxera ao Submundo prematuramente, e assim conseguiu voltar à terra. Como castigo, foi condenado a empurrar uma enorme rocha morro acima Cada vez que chegava ao topo, a pedra rolava de volta, até embaixo, e ele tinha de começar tudo de novo, e de novo, para todo o sempre"

Trabalham, trabalham e o fluxo de gente entrando e saindo é algo assustador. Todo ano, as instituições têm suas pedras de programações para empurrar rumo ao ápice da realização, porém, a pedra nunca permanece no alto, só enfado e frustrações. Enquanto não deixarem o peso inútil dos eventos e olharem para quem está caído no chão, nunca alcançarão êxito.

O Samaritano, no entanto, é a contramão de tudo que a instituição religiosa dos tempos de Jesus, fazia. Hoje, não é diferente. Não estou afirmando que todos desinstitualizados estão certos. É possível que haja servos de Deus que fazem um trabalho relevante usando a sua instituição. A questão está no uso dela.
Vejamos o tratamento feito por um obreiro legítimo: primeiramente, o samaritano chegou ao pé dele (houve interesse) e, vendo-o (não fez vista grossa) e moveu-se de íntima compaixão (sentiu a dor alheia). Um cristão pós-moderno, influenciado pela sociedade, esperaria o espancado a arrastar-se até à sua “igreja”; ao vê-lo, avaliaria a sua utilidade na instituição e o prepararia para ser mais uma engrenagem para o funcionamento do seu sistema. Compadecer-se de alguém é acompanhado de práticas responsáveis. É natural que passe primeiro a assepsia (vinho) para depois o composto curativo (azeite). Mas não foi isso que aconteceu; para que a dor não aumentasse, o samaritano inverteu a ordem, colocando primeiramente o azeite. Será que a nossa geração está mais sensível à dor alheia?

Perceba que eu estou trabalhando a parábola como se a história tivesse acontecido. Acredito que deste modo, torna-se mais compreensível a nossa reflexão. 

Pelo que parece, o samaritano estava longe de sua casa, talvez viajando. Senão, o hospedaria. A decisão de o levar à uma estalagem, pressupõe que o moribundo precisava de cuidado contínuo, ou seja, os seus primeiros socorros não foram suficientes. A respeito da estalagem, Russell nos diz que:

Entre os autores do N.T., esse vocábulo se encontra apenas nesta passagem. Vem das palavras pan (todos) e dechomai (receber). Portanto, tratava-se de um lugar onde todos eram bem recebidos. Há duas ruínas de hospedarias, encontradas na estrada entre Jerusalém e Jericó. Uma dessas ruínas fica a cerca de pouco mais de quilômetro e meio de Betânia, e a outra, um pouco mais adiante, fica na porção mais perigosa da estrada. Ali se podem ver grandes ruínas, chamadas Khan el Almah, as quais ficam situadas no topo de uma íngreme penedia. Não temos maneira de averiguar se esse local representa a possível localização da hospedaria existente nos tempos de Jesus (CHAMPLIN, 1933, p. 110).

A aplicação dessa estalagem tem sido debatida nos púlpitos das comunidades religiosas. Novamente, recorremos ao nosso amigo Norman. Afirma ele:

Esta passagem inteira tem sido sujeita ao processo de transformá-la em uma mera alegoria, conforme tem sucedido a tantas das narrativas dos evangelhos. O vinho se transforma então no sangue de Cristo; o óleo é o Espírito Santo; a hospedaria é a igreja; e muitas outras interpretações têm sido aventadas, embora nada disso fosse a intenção do escritor sagrado, embora sejam verdades dignas de serem mencionadas, apesar de não fazerem parte direta da história bíblica (CHAMPLIN, 1933, p. 110).

Se formos aplicá-la deste modo, a pergunta que se faz é: “Temos estalagens preparadas para receberem os enfermos de hoje”?
Durante esses últimos 25 anos, eu tenho frequentado, pesquisado e comparado as instituições chamadas cristãs e concluído que estamos fazendo um péssimo trabalho. As seitas evangélicas são culticamente organizadas; não aceitam badernas litúrgicas e fecham as portas para os modismos da sociedade. Todavia não prezam pela exposição bíblica; acorrentam o estudo bíblico aos pés das experiências; inibem o senso crítico e ao invés de discipular os novos, adestram para comporem a grande máquina de produzir riquezas. Já as comunidades cristãs, tanto as tradicionais quanto as renovadas, tornaram-se pontos de encontro. O bem estar, os picos de emoção e a prosperidade material são os norteadores do sistema. Enquanto as seitas impõem uma santificação legalista, as comunidades têm a elevação do ego como a santidade cristã.
Pense comigo: se eu levo um vizinho meu a um desses dois modelos de estalagens, obviamente, ele não será medicado, mas tornar-se-á um fantoche. Por favor, não me entenda mal; acredito que as instituições nas mãos de pessoas sérias, são benéficas. O que quero ressaltar é a responsabilidade que temos em escolher uma estalagem certa.

Jesus conclui sua parábola com a assistência financeira do samaritano e nos convida a fazer o mesmo. O faminto, o sedento, o depressivo, o sem teto, o viciado, o desempregado e o enfermo tem uma alma. Quando essa alma tem contato com a mensagem do Crucificado, as demais carências são sanadas. Por outro lado, dizer que Jesus te ama, não mata a fome, a sede e tão pouco liquida uma fatura de energia elétrica. Porém, o amor de Jesus em mim pode suprir muitas necessidades. 

Quero fechar esta breve reflexão crente que você tenha entendido a minha abordagem. Não estou aqui tecendo condenações às instituições, absolutamente! O meu desejo é que venhamos a compreender o seu verdadeiro papel no seio cristão.

Por Daniel Santos 

REFERÊNCIA

CHAMPLIN, Russell Norman, 1933 - O Novo Testamento Interpretado: versículo por versículo: Volume 1: Artigos introdutórios, Mateus, Marcos / Russell Norman Champlin. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 110.

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