DA TRINDADE, Introdução
Lucas 3:22
"E o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea, como pomba; e ouviu-se uma voz do céu, que dizia: Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo."
É verdade que as Escrituras não trazem o termo "Trindade" grafado em seus caracteres. Por outro lado, se você concorda com o Concílio de Niceia (de 325), a Santíssima Trindade faz parte do seu corpo doutrinário. A pergunta a se fazer é: de onde os nossos irmãos trouxeram esse conceito?
À guisa de curiosidade, a ideia de uma Trindade (ou de divindades tríplices/tríades) aparece em diversas religiões ao longo da história humana, assumindo conceitos e funções bem diferentes entre si. Veja alguns exemplos:
RELIGIÃO DA SUMÉRIA/ACÁDIA (4000 A.C.)
An (ou Anu): O deus do Céu, o pai de todos os deuses e a autoridade suprema inicial.
Enlil: O deus do Vento, da Atmosfera e das Tempestades. Era o guardião das "Tábuas do Destino" e quem exercia o poder executivo real sobre a Terra.
Enki (ou Ea): O deus das Águas Doces subterrâneas (o Abzu), da sabedoria, da magia e da criação da humanidade.
Posteriormente, com a evolução dos cultos babilônicos e assírios, as forças da natureza visíveis no céu foram agrupadas em outra tríade importantíssima para o cotidiano, a agricultura e a astrologia:
Sin (outrora Nanna): O deus da Lua, associado ao tempo e aos calendários.
Shamash (outrora Utu): O deus do Sol, da justiça e da verdade.
Ishtar (outrora Inanna): A deusa do planeta Vênus, associada ao amor, à fertilidade e à guerra.
RELIGIÃO ANTIGA DO EGITO (3000 a.C.)
Osíris: O pai e soberano do submundo
Ísis: A mãe, deusa da magia e da proteção
Hórus: O filho, protetor do faraó
HINDUÍSMO (2300 A.C.)
Brahma: O Criador
Vishnu: O Preservador
Shiva: O Destruidor / Transformador
RELIGIÃO DE TEBAS (2055 A.C.)
Amun, Mut e Khonsu.
MITOLOGIA E RELIGIÃO ROMANA/GREGA (3000–100 A.C.)
Tríade Cosmológica Grega: Zeus (céus), Poseidon (mares) e Hades (submundo) dividindo o controle do universo.
Tríade Capitolina (Romana): Júpiter (rei dos deuses), Juno (protetora das mulheres e do Estado) e Minerva (deusa da sabedoria).
TAOÍSMO (500 A.C.)
O Puro Primordial: (Yuanshi Tianzun)
O Supremo Puro: (Lingbao Tianzun)
O Grande Puro: (Daode Tianzun frequentemente associado a Laozi)
NEOPAGANISMO E WICCA (1950 D.C.)
A Donzela: Lua Crescente (juventude, começos).
A Mãe: Lua Cheia (fertilidade, maturidade).
A Anciã: Lua Minguante (sabedoria, morte e transformação).
Obs. Pesquisa realizada em IA (Gemini).
Espero que você, caro leitor, não confunda o politeísmo trino do paganismo com a Trindade Bíblica. O Nazareno, em nenhum momento de seus discursos, afirmou ser herança das religiões antigas. Vamos consultar alguns registros que trataram dessa distinção?
Nada como “começar do começo”. Você sabia que um advogado africano foi quem cunhou o termo Trindade? Pois é, Tertuliano se converteu e se destacou como um grande apologista (não convém falar aqui do seu envolvimento posterior com o montanismo). A respeito da Trindade, ele disse:
Nós cremos em um único Deus, contudo sujeito a esta dispensação, que é nossa palavra para designar 'economia', e que o único Deus tem também um Filho, Sua Palavra, que procedeu dEle mesmo... e este Filho enviou então o Espírito Santo, o Paráclito, de acordo com Sua promessa a partir do Pai. ¹
Respondendo aos pneumatômacos (os que batiam de frente contra a divindade do Espírito Santo), Atanásio escreve a Serapião: "O Espírito Santo é alguém além das criaturas, e é claro que ele é próprio do Filho e não estranho a Deus..."
...E ao herege Ário, Atanásio afirma:
"Ontologicamente, o Espírito, unido ao Filho, vincula-o estritamente ao Pai, sendo este, o Pai, por sua vez, idêntico ao Filho que gerou de si: de tal modo que o Espírito é com razão dito Espírito do Pai, procede do Pai, está no Pai, participa da mesma realidade divina do Pai. Se o Espírito é sempre o mesmo, inalterável, e participa da imutabilidade do Filho, não é uma criatura nem pertence de modo algum à substância dos anjos, dado que estes são mutáveis. Ele é, em vez disso, a imagem do Verbo, a realidade própria do Pai. ²
Agostinho, tempos depois, ressalta:
Em Deus, pois, quando o Filho que é igual se une ao Pai que lhe é igual, ou o Espírito Santo, que é também igual ao Pai e ao Filho, Deus não se torna maior do que cada uma das pessoas, pois essa perfeição não lhe é acrescentada. Perfeito é o Pai, perfeito é o Filho, perfeito é o Espírito Santo; perfeito é Deus: Pai, Filho e Espírito Santo. Concluindo, Deus é Trindade, mas não tríplice, isto é, não são três deuses. ³
Tertuliano, Atanásio e Agostinho talvez sejam os pensadores mais importantes no desenvolvimento desse conceito. A Trindade bíblica não dá espaço para a ideia de três deuses. Sua abordagem constitui Deus como uma só natureza manifesta em três Pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo).
Pense no tempo: ele se divide em Presente, Passado e Futuro. O presente não é o passado, o passado não é o futuro e, tampouco, o futuro é o presente. No entanto, os três são o tempo. O tempo é a natureza; os três estágios são as suas distinções.
O “Boi Mudo” (São Tomás de Aquino), como de costume, escava o conceito e nos traz o seguinte tesouro:
Pois nenhum nome comum às três Pessoas é próprio de qualquer delas. Ora, o nome Espírito Santo é comum às três Pessoas. Assim, Hilário mostra que o Espírito Santo de Deus, umas vezes, significa o Pai, como quando diz a Escritura (Is 61, 1): 'O Espírito do Senhor repousou sobre mi'm; outras, o Filho, como quando diz (Mt 12, 28): 'Lanço fora os demônios pela virtude do Espírito de Deus', mostrando que expulsa os demônios pelo poder da sua natureza; outras ainda, o Espírito Santo, como neste lugar (Jl 2, 28): 'Eu derramarei o meu espírito sobre toda a carne'. Logo, o nome de Espírito Santo não é próprio de nenhuma das Pessoas divinas. ⁴
São Tomás de Aquino afirma que o termo "Espírito Santo" não é um nome exclusivo de apenas uma das Três Pessoas da Trindade, mas sim um termo comum que pode se referir a qualquer uma delas, dependendo do contexto bíblico. Para provar isso, ele cita o teólogo Santo Hilário e aponta três aplicações diferentes do termo na Bíblia:
1- Significando o Pai: Quando a Escritura fala do "Espírito do Senhor".
2- Significando o Filho: Quando se refere ao "Espírito de Deus" como o poder e a natureza divina pelos quais Cristo operava milagres.
3- Significando a Terceira Pessoa (o Espírito Santo em si): Quando a profecia fala sobre "derramar o espírito sobre toda a carne".
Como o nome pode ser aplicado legitimamente ao Pai, ao Filho e à Terceira Pessoa, ele é, por sua natureza, um nome comum à divindade, e não uma propriedade exclusiva de apenas um deles nesse contexto gramatical e teológico. Eis aí a beleza e a sutil distinção que há entre a Trindade bíblica e a trindade politeísta do paganismo.
Diante de todo esse percurso histórico e teológico, fica evidente que a Santíssima Trindade bíblica não é uma mera cópia ou evolução das tríades pagãs da antiguidade. Enquanto o politeísmo antigo dividia o poder cósmico entre três divindades distintas com vontades frequentemente conflitantes, o monoteísmo cristão revela algo radicalmente diferente: um único Deus em três Pessoas que compartilham a mesmíssima essência divina.
A analogia do tempo (passado, presente e futuro sendo o mesmo tempo) nos ajuda a tatear o mistério, mas é na teologia profunda que encontramos a resposta para a pergunta inicial: De onde veio esse conceito? Ele não veio do sincretismo com o Egito ou com a Babilônia; veio da própria Escritura, dissecada e defendida por mentes brilhantes que entenderam que Deus é uma comunidade perfeita de amor.
Em suma, a Trindade bíblica é o mistério de um Deus que não é solidão, mas relação. Um Deus que é paradoxalmente Único em sua natureza e Trino em suas Pessoas, mantendo uma harmonia e distinção que nenhuma mitologia pagã jamais conseguiu conceber.
REFERÊNCIAS
¹ KELLY, John N. D. Patrística: origem e desenvolvimento das doutrinas centrais da fé cristã. 1. ed. Tradução Márcio Loureiro Redondo. São Paulo: Vida Nova, 1994. p.100.
² SANTO ATANÁSIO. Patrística: Contra os pagãos, A encarnação do Verbo, Apologia ao imperador Constâncio, Apologia de sua fuga, Vida e conduta de S. Antão - Vol. 18. 1ª ed. São Paulo: Paulus Editora, 1995, p. 23-24.
³ AGOSTINHO. Patrística: A Trindade, v. 7. 1ª ed. São Paulo: Paulus Editora, 1995, p. 139.
⁴ AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. 1. ed. Tradução Alexandre Correia. Rio de janeiro: Ecclesiae, 2018, p.373.

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