A GRAÇA SOZINHA NÃO TEM GRAÇA



Atos dos Apóstolos 13:42-46:
"E, saídos os judeus da sinagoga, os gentios rogaram que no sábado seguinte lhes fossem ditas as mesmas coisas. E, despedida a sinagoga, muitos dos judeus e dos prosélitos religiosos seguiram Paulo e Barnabé; os quais, falando-lhes, os exortavam a que permanecessem na graça de Deus. E no sábado seguinte ajuntou-se quase toda a cidade para ouvir a palavra de Deus. Então os judeus, vendo a multidão, encheram-se de inveja e, blasfemando, contradiziam o que Paulo falava. Mas Paulo e Barnabé, usando de ousadia, disseram: Era mister que a vós se vos pregasse primeiro a palavra de Deus; mas, visto que a rejeitais, e não vos julgais dignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os gentios."


Engana-se quem acredita que alguém possa contribuir para o "desligamento" de um crente de sistema. Sem sucesso. É mais fácil o gentio - aquele sem manuais - se converter do que o institucionalizado ser despertado por outra pessoa. O motivo é simples: o sistema religioso, além de suprir necessidades imediatas de seus adeptos, alimenta a vaidade com promoções e, sobretudo, negocia a entrada no paraíso. Isso explica a dificuldade que Paulo e Silas enfrentaram.

A graça que esses dois evangelistas pregavam dispensava templos, rituais, hierarquias, cacoetes e todo tipo de cambalacho religioso. Diferentemente do sistema de onde o apóstolo saíra, o evangelho pregado é "novidade de vida". A título de comparação, Paulo jamais reconheceria o nosso teatro cúltico moderno como um culto agradável a Deus.

Por outro lado, pense comigo: como um fariseu da época de Paulo ou o crente denominacional de hoje processariam mentalmente uma fé livre de: gurus, penitências, obediência cega, promoção pessoal, bajulação e — a principal algema do sistema — a produção de dopamina?

A natureza humana busca o conforto. Qualquer iniciado, filósofo ou profeta que convidar a sociedade a sair de seu estado cômodo para elevar o nível de consciência será violentamente desprezado. Foi assim com os profetas veterotestamentários, Sócrates, Cristo, os apóstolos e muitos outros no decorrer da história. Há correntes cristãs sectárias que, segundo o paladar de seus adeptos, preferem que a pregação ostente um certo grau de mistério. Elas têm o costume de desprezar a inspiração textual em detrimento da revelação subjetiva; em outras palavras, julgam-se mais santas que os textos bíblicos bíblicos. Desde que a “revelação particular” não fira os interesses da liderança, os chefes de filiais podem inventar o que quiserem.

A pergunta que faço é: de 0 a 10, quais as chances de um membro se livrar desse regime?

Há quem diga que o crente fora do mercado cristão perderá o rumo na fé e que, à parte do corpo de Cristo, morremos espiritualmente. É verdade: o simples fato de abrirmos mão da comunhão com os santos já nos coloca em pecado. Por isso, Paulo e os demais se reuniam sem casa fixa, longe de politicagem; abominavam rótulos, não acumulavam quinquilharias, ceavam abundantemente em memória do Cristo e não usavam o próximo para beneficiar o sistema religioso. Na verdade, o simples fato de optar por uma denominação religiosa já é, em essência, apartar-se do corpo de Cristo.

• Quantas pessoas você conhece que visitam, congregam, pregam e banqueteiam livremente em outros grupos?

• Você já viu uma seita cristã aceitar a pregação de um "outro crente" em seu púlpito?

Eu poderia tecer dezenas de perguntas dessa natureza, e você responderia: “É que cada um foi chamado para uma ênfase teológica e para um propósito específico”. Mas essas ênfases e propósitos não poderiam ser realizados com base na união de todos os membros do corpo de Cristo? 
Na verdade, o que se pretende é dividir, competir, aumentar o patrimônio e destacar-se para que o ego do "dono" ou da cúpula seja satisfeito.

Dito isso, concluímos nossa reflexão convidando você a pensar sobre uma proposta — não muito nova — que os donos de religião usaram e continuam usando para subtrair adeptos de outras linhas (v. 45), a narrativa: “Saiam da religião e venham para o evangelho de Cristo!”.

Se há CNPJ, templo, gurus, rituais, manuais de fé, dogmas subjetivos, manejo de recursos financeiros de terceiros e estímulo à dopamina, é sistema religioso, não se engane! A mulher de Sicar, Lázaro e suas irmãs, Paulo e os demais entenderam isso facilmente — com exceção de Pedro, obviamente. E por que você ainda insiste em fazer da fé cristã uma denominação religiosa?

Por outro lado, eu o entendo. O cristianismo institucional só existe porque seus patrocinadores não sobrevivem sem a coação. Precisam de um dono, de um time e de um jugo humano. Infelizmente, para muitos, a graça de Cristo não basta.

Por Daniel Santos 

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