O PASTOR DO SALMO



Adonai (Meu Deus) amigo íntimo não faltará / 

“מִזְמֹ֥ור לְדָוִ֑ד יְהוָ֥ה רֹ֝עִ֗י לֹ֣א אֶחְסָֽר (Sl 23.


Tenho a impressão que este versículo é um dos textos mais conhecidos, pregados, recitados e reescritos das escrituras. E o mais interessante é que as traduções nunca entraram em acordo ao dar sentido a ele; temos traduções de todas as formas possíveis. No entanto, não sou eu que darei a tradução correta. Estarei trabalhando com uma tradução possível, a mais próxima do sentido imediato. O professor Edno foi feliz ao afirmar que:

A principal literatura para o estudo das Escrituras, a melhor maneira de entender o verdadeiro significado de um texto sempre é partindo da língua original. Toda tradução, na realidade, é uma interpretação. Dificilmente você conseguirá extrair toda a essência ou verdade de uma tradução, por melhor que ela seja. Além disso, muitos tradutores buscam acomodar a tradução à doutrina da qual ele está inserido (EDNO, 2016, p.111).

A tradução mais bem aceita pelo público é a que mais se encaixa com a Teologia da Prosperidade: “se o Senhor é o meu pastor, nada me faltará”, não obstante a vida cristã é alicerçada nos princípios de Cristo, e não nas circunstâncias. Vivemos dia após dia com a falta de muitas coisas, e nem por isso a nossa relação de amizade com Deus é manchada. Mas vamos caminhar, convido você, caro leitor, a meditar nas palavras deste salmista.


Adonai é o mesmo que dizer: Meu Senhor.

Acompanhe-me neste raciocínio: se eu tenho alguém, tudo que lhe é próprio, é meu. E se eu digo que este alguém é meu, estou indiretamente afirmando que há um risco de não tê-lo. E se há este risco, a autonomia de perdê-lo é minha. Ou não? 

Na verdade, ninguém tem ou detém O Deus Pastor. O salmista usa o pronome possessivo para externar a sua dependência que é semelhante à da ovelha. Ter um Senhor é um sinônimo perfeito de não ser senhor de si mesmo. Portanto, perdê-lo é tornar a ser o senhor da própria vida. Este é um exercício que eu quero fazer e também propor a você: quantos por cento da nossa vida, você e eu, entregamos ao senhorio do sumo Pastor?

Perceba que os próximos versos estão precisamente alinhados à dependência da ovelha para com o seu pastor. Talvez possamos trabalhá-los em outra oportunidade.

Quando falamos do adjetivo (qualificativo) amigo, pensamos em seu substantivo feminino, a amizade. Em sua fenomenal obra, Ética a Nicômaco (2013), Aristóteles define a amizade de modo belíssimo. Segundo ele, amizade é: "comportar-se com o amigo como consigo mesmo", ver nele "um outro eu". 

Vale salientar que não somos amigos de Deus, foi Ele quem escolheu ter amizade conosco. Jesus Cristo é a amizade de Deus no homem; em outras palavras, A amizade de Deus para conosco é uma pessoa, Jesus Cristo Homem.

Quero concluir esta humilde consideração dando voz a um dos mais célebres poetas do século XX, o libanês Khalil Gibran. Ele é um daqueles que dizem muito com poucas palavras. Disse ele:

Seu amigo é a resposta de suas necessidades. É o campo que você semeia com amor e do qual colhe com gratidão. E é sua mesa e sua lareira. Pois chegam a ele com fome e nele buscam tranquilidade. Quando seu amigo disser o que pensa, não tema o “não” que há em seu próprio pensamento nem lhe negue o “sim”. E quando ele ficar em silêncio, que seu coração não deixe de escutar o dele; Pois na amizade, sem palavras, todas as ideias, os desejos e as expectativas nascem e são compartilhados com uma alegria pouco celebrada. Quando se separar de seu amigo, não guarde mágoa. Pois aquilo que mais ama nele será mais nítido em sua ausência, assim como a montanha é mais nítida quando o alpinista ainda está na terra. E que não haja motivo na amizade senão o crescimento da alma. Pois o amor que busca algo além da revelação do próprio mistério não é amor, mas uma rede já lançada, e a rede só apanha o que não vale nada. E garanta que seu amigo receba o melhor de você. Que conheça sua maré baixa, mas também conheça a maré cheia. Pois como seria se você só o procurasse para matar o tempo? Sempre o procure com tempo a viver. Pois é ele quem vai satisfazer suas necessidades, mas não preencher seu vazio. E, na doçura da amizade, que haja riso e prazeres compartilhados. Pois é no orvalho das coisas simples que o coração encontra sua manhã e sai renovado (GIBRAN, 2019, p. 80-82)

Diante de inaudita beleza, podemos viver uma amizade como esta? É certo que o Poeta está se referindo ao amigo como você e eu. Agora, se buscarmos no Senhor Jesus, Ele é a nossa mesa (comunhão com o Pai); Ele é a nossa lareira em dias frios; ele é O Alimento ao faminto e a Brisa Suave em dias turbulentos (...). Deixo com você as demais comparações, o poema é rico. Que Deus nos abençoe!

Por Daniel Santos 


REFERÊNCIAS

EDNO, José Almeida Filho. Línguas Bíblicas. Maringá - Pr.: UniCesumar, 2016. Reimpresso em 2019, p. 111.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução Torrieri Guimarães. São Paulo: LPM, 2013.

GIBRAN, Khalil, 1883-1931. O Profeta. tradução de Ana Guadalupe. – São Paulo: Planeta do Brasil, 2019, p.80-82.

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