O SÍSIFO DE "CRISTO"
João:3.3,5 Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus… Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus.
“Vi, também, Sísifo, e o modo por que ele, com pena indizível, com ambas as mãos tentava arrastar uma pedra enormíssima. Firma os dois pés no chão duro, com ambas as mãos esforçando-se para levar para cima o penedo; mas, quando pensava que já vencera o alto monte, com força outra vez retornava. Dessa maneira, até o plano, rolava o penhasco impudente. Ele de novo a empurrá-lo começa, suor escorrendo-lhe dos membros todos, enquanto a cabeça de poeira se cobre.” ¹
Segundo a mitologia grega, Sísifo foi o primeiro rei de Corinto. Por ter enganado a morte (um deus mitológico) em duas ocasiões, foi condenado a empurrar eternamente uma pedra até o topo de um penhasco. Toda vez que lá chegava, a pedra rolava morro abaixo e seu trabalho reiniciava. Pelo visto, enganar os deuses gregos não era uma boa escolha.
Talvez você esteja se perguntando: qual é a relação entre o obreiro Nicodemos e a sentença do rei Sísifo?
A relação é clara. Não somente Nicodemos, mas qualquer religioso que vive na mecanicidade religiosa — consciente ou inconscientemente — logrou o deus da tradição. Falo de "deus" com “d” minúsculo porque me refiro ao deus mercadológico que tem sido vendido nos balcões da fé. Ele é criado segundo a imagem e semelhança do seu dono (o dono da instituição religiosa); tem o hábito de distribuir cargos, cobrar pedágios (sob o nome de dízimos e ofertas), enriquecer as lideranças e promover eventos lucrativos, detendo a autoridade de queimar os questionadores no inferno.
Se você ainda se encontra sóbrio e arrimado na Palavra de Deus, já deve ter percebido que, assim como a sociedade empurra sua angústia morro acima a fim de encontrar no topo a verdadeira felicidade, a dita “igreja” também luta de modo tirânico no intuito de ser a organização mais poderosa da Terra. Segundo ela, mesmo contrariando a desanexação feita pelo Senhor (Mt 22:21), alienar-se a César a torna indestrutível.
Já que pisamos em solo político, é nítido que a massa evangélica não percebe que a politicagem (a bancada evangélica) nos desvia do que temos de mais basilar na identidade da igreja: a dependência total do Espírito Santo. Se cidadania fosse guindar políticos com valores cristãos, por que Paulo não o fez? Ele poderia ter usado a política a favor da igreja; teria organizado a primeira “Marcha para Jesus” no intuito de promover ou derrubar integrantes do Senado Romano. Embora algumas autoridades políticas tenham sido alcançadas pela pregação da igreja, a noiva de Cristo se mantinha em seu propósito: proclamar o Rei, o Governador e o Prefeito de nossas almas.
Perceba: se, ao invés de apoiarmos políticos que alegam defender os princípios cristãos, não seria melhor vivermos esses princípios? Do que adianta afirmarmos ser cristãos se o nosso lar vive de aparência; se na área profissional somos avarentos; se no âmbito social só nos interessa quem nos traz vantagens; se no meio religioso valorizamos apenas patrocinadores e serviçais; e se a nossa exposição nos palcos da fé serve somente para saciar a nossa vaidade?
Não é difícil entender que, se as principais figuras do meio cristão vivessem uma vida íntegra e levassem os demais a serem praticantes da fé, o meio político entraria como consequência; ou seja, os políticos são frutos da sociedade, e não a semente. A situação tornou-se tão grave que, vez ou outra, nos deparamos com indivíduos que creem no messianismo político e que um líder mudará, para melhor, os rumos da nação. Se esse líder é eleito por uma nação inepta, qual é a chance de isso acontecer? Partindo de Sísifo, a pedra das vãs esperanças será empurrada nesta colina política por muitos outros mandatos.
Voltando à punição de Sísifo na pele do nosso irmão Nicodemos, ressalto que é muito comum — e você há de convir — que a sistemática religiosa veja a manutenção do sistema como a execução da Obra de Deus. Pelo simples fato de atrair e alienar pessoas através da invocação de entidades, já se considera o Reino de Deus na Terra. Nota-se que, ao fazer do espaço de culto uma casa de eventos, a pregação transformou-se em discurso motivacional. Em muitos casos, se o grupo estiver cansado de empurrar a penha do tédio, a liderança usa as Escrituras para coagir seus adeptos por meio de malabarismos textuais.
As almas não têm mais a primazia. Ultimamente, acolhem-se pessoas para fazer com que a grande máquina funcione, isto é, para que o dono ou a cúpula possam ter uma vida confortável, desfrutem de viagens milionárias, provem pratos refinados e ostentem seus carros e mansões de luxo. Às vezes me pego pensando no quão ingênuos são os crentes de hoje; em pleno século XXI e com tanta informação disponível, boa parte da cristandade ainda opta pela subserviência.
Nicodemos precisou aprender a maior de todas as lições: a obra de Deus não está fora, nas penitências ou nas obrigações vazias do ritual, mas no novo nascimento, na genuína natureza e na vida abundante que só o Espírito Santo pode proporcionar. O peso da cruz já foi suportado no Gólgota e o pecado nunca mais será o vilão da história. O que devemos apreciar todos os dias não são as querelas de líderes corruptos, as animações comunitárias e tampouco as mazelas dos sistemas religiosos.
O novo nascimento é a morte da velha natureza, e não um bom currículo de crente. Não "faço para ser", mas "faço porque sou"; em outras palavras, quem faz é o sujeito. Se não nasci de novo, tudo o que faço, soteriologicamente falando, faço-o inutilmente. É por isso que o Espírito Santo gera em nós um novo ser. A obra do Espírito Santo, portanto, não consiste em abastecer sistemas, mas em lutar para que os principados, as potestades, os príncipes das trevas deste século e as hostes espirituais da maldade nos lugares celestiais não nos escravizem (Ef 6:12).
Poderíamos ter refletido sobre muitas outras áreas sociais; talvez em outra oportunidade. Nas minhas considerações finais, quero concluir afirmando crer na indestrutibilidade da igreja. Sei que ela não empurra a pedra da vergonha, do marketing institucional, da manipulação ou do mercado, e tampouco se prostitui com facções religiosas e seus políticos. Nascer de novo significa ver como Jesus vê, agir como o Verbo age e caminhar em Seu caminho, rumo à pureza de Sua natureza.
Por Daniel Santos
Referências
¹HOMERO, A Odisseia. canto Xl, vs 90

DEIXE SEU COMENTÁRIO