ESCONDENDO-SE À SOMBRA DO ONIPOTENTE




Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará (Sl 91:1).

Após perceber que os pensamentos, o sonho e a morte pertencem a uma área autônoma do ser, o homem passou a dar morada às aflições de sua existência. Em vez de procurar em si mesmo a natureza do seu abismo, criou alguns escapes para se esconder da realidade. São inúmeros os recursos criados pelo homem; no entanto, dois entretenimentos se destacaram: a religião e os vícios.

Pelo prisma veterotestamentário, creio que não tenhamos muito a discorrer, pois esconderijo e descanso são anseios comuns no Oriente Próximo. Por outro lado, se elevarmos esse aforismo ao nível da consciência, seremos bem mais produtivos.


AQUELE QUE HABITA…

O pronome demonstrativo “aquele” indica uma sugestão aberta: qualquer um pode ser “aquele”, não há restrições. Já o verbo “habitar” transmite a ideia de permanência e solidez. Quero dizer que, quando o humano habita — independentemente dos caminhos traçados —, a conclusão do seu dia é a habitação.

Permita-me ser mais claro. Existe uma crença no meio religioso de que determinados lugares são sagrados. Neles, as pessoas invocam suas entidades — no caso do cristianismo, a Santíssima Trindade — e, a partir de rituais (louvores, oração e ministração da palavra), espera-se que a divindade se manifeste. Se o divino possui um endereço, uma instituição, rituais e horários marcados para se apresentar, então essa entidade não é o Deus verdadeiro; trata-se apenas de mais uma personificação divina do sistema.

É lamentável que o cristianismo institucional não reconheça Cristo como o fim da religião e o corpo do crente como o Templo do Espírito Santo. Se esse reconhecimento fosse pleno, os templos seriam fechados, os mercenários perderiam seus esquemas e, talvez, gozaríamos de um avivamento genuíno.

Não vejo com maus olhos a aplicação de que o esconderijo do Altíssimo era o tabernáculo em seu contexto histórico. Mas aplicá-lo hoje como se o esconderijo fosse o templo físico ou um amontoado de pessoas é, além de inapropriado, um ato pernicioso. Em Cristo, habitamos em Deus e Deus, por meio de Cristo e através do seu Espírito Santo, habita na sua Igreja. Igreja, e não sistema religioso — não confunda!

• A Igreja: É um corpo místico e invisível de almas que foram alcançadas e resgatadas pelo Evangelho do Cristo Histórico.

• O Sistema Religioso (cristão): É uma versão dogmática e doutrinária do "Cristo" idealizado por um fundador, um grupo de líderes ou um coletivo de dissidentes e fanáticos.

• A Instituição Religiosa (cristã): É a comunidade legalmente estabelecida e estruturada na sociedade (a pessoa jurídica, o CNPJ), geralmente vinculada a um sistema religioso.

Por isso, consagrar ambientes, agendar dias e horários, praticar rituais e invocar o Espírito Santo esperando dele respostas mecânicas é um equívoco; certamente a resposta não vem de Deus. A neurociência já explicou esse fenômeno! Aquele que habita é habitação permanente de Deus e não depende do teatro religioso.


À SOMBRA DO ONIPOTENTE

Onde fica essa sombra?

Uns dirão que está na rua ou avenida "X", no bairro "B", porque "lá existe uma paz que não tenho em minha casa".

Quem nunca ouviu a frase: “Eu vou àquela igreja porque lá sinto uma paz profunda”? Se só há paz real em uma área geograficamente demarcada, é sinal de que essa alma nunca conheceu a Deus. O Nazareno, que disse: “Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem” (Jo 4:23), obviamente não é o seu Senhor.

O indivíduo muitas vezes ignora que o teatro cúltico libera neurotransmissores e hormônios que impactam as emoções e o cérebro, proporcionando bem-estar físico. Essa sensação é facilmente confundida com o Espírito Santo. Haverá quem indague: "E os sinais e experiências sobrenaturais que se encaixam com as necessidades dos fiéis? Como pode alguém pregar ou cantar e 'adivinhar' o problema de alguém?".

Para essa questão, as respostas são inúmeras. A mais comum é a profecia autorrealizável:


"No caso específico da profecia autorrealizadora, o organismo se comporta, inicialmente, em função da regra. [...] Enquanto no comportamento supersticioso o responder não produz o evento que seleciona aquela classe de resposta, na profecia autorrealizadora, ao se comportar inicialmente em função da regra, o evento especificado pela mesma é produzido a posteriori [...]. É nesse sentido que a regra 'falsa' se torna 'verdadeira'" (ANA, 2018, p. 527).

Não estou afirmando que todas as experiências são baseadas em estratégias psicológicas. Todo contexto precisa ser avaliado, principalmente em meios sectários. Seitas utilizam mecanismos psicológicos e sociológicos para confirmar doutrinas distorcidas, criando uma realidade onde a crença cega motiva os membros a agirem de forma a tornar a "profecia" verdadeira. É por isso que, na maioria delas, as "experiências", os "testemunhos" e os "dons" recebem atenção obsessiva.

Embora os dons espirituais sejam uma realidade na vida da igreja, conheço grupos onde visões e revelações são compulsórias. Quem não as tem é considerado "fraco na fé". Será que estar à sombra do Onipotente é isso?

Descansar sob essa sombra dispensa todo artifício humano. A onipotência pressupõe recursos ilimitados. Se o homem habita no esconderijo, não há "manobra" a fazer. O esconderijo é para quem corre riscos; estar à sombra do Poder Máximo é para quem não tem condições de se preservar sozinho.

Concluo refletindo sobre os atributos: Altíssimo e Onipotente. Esconder-se em quem é "Alto" ou habita nas alturas significa que nada excede Sua majestade é que nenhum evento foge do seu olhar. E estar à sombra de quem é o "Poder Supremo" torna todas as nossas escoras, bengalas e muletas religiosas abominações diante d'Ele.

Meu convite a você é: deixe sua máscara, abandone o teatro, ignore as penitências tolas e curve-se diante do Único e Verdadeiro Senhor.

Por Daniel Santos 


Referências


ANA; CARVALHO, F.; COUTINHO, R.; GOMIDE, B.; PESSOA, N.; STUART, P.; XAVIER, N. A profecia autorrealizadora sob a óptica da Análise do comportamento. México: Revista Latina de Análisis de Comportamiento, vol. 26, núm. 4, 2018, p. 527.

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