DO AMOR
1 João 4:8 — Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor.
“Eu te amo”. “O amor é lindo”. “Você não tem amor ao próximo”. “Não importa, ame”...
O que é o amor?
Seria a dor que sentimos ao encontrar o faminto, o prazer de ter o cônjuge por perto, a revolta em ver o vulnerável sendo abusado ou o sacrifício pessoal em favor do outro?
Talvez os bons sentimentos e os comportamentos exemplares sejam elementos que constituem o amor. Ou quem sabe nada disso tenha relação com ele.
Perturbado com esse tema, visitei um belo e isolado jardim que ficava fora dos limites de Atenas. Era uma comunidade filosófica, onde a voz proeminente vinha de um certo Epicuro. Resolvi entrevistá-lo. Se ele não tivesse existido três séculos antes do registro joanino, Epicuro proporia ao(s) autor(es):
Deus, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode. Se quer e não pode, é impotente: o que é impossível em Deus. Se pode e não quer, é invejoso: o que, do mesmo modo, é contrário a Deus. Se nem quer nem pode, é invejoso e impotente: portanto, nem sequer é Deus. Se pode e quer, o que é a única coisa compatível com Deus, donde provém então a existência dos males? Por que razão é que não os impede? ¹
Na verdade, nem precisei abrir a minha boca; a sua aula, indiretamente, complicou ainda mais a situação. Estou ciente de que o paradoxo de Epicuro trabalha o problema do mal, e de que a sua intenção era pontuar a indiferença dos deuses em relação às questões humanas. E, partindo do seu paradoxo, os argumentos propostos nos provocam a perguntar: se Deus é amor, por que sofremos?
A resposta mais comum — e sobretudo rasteira — é que sofremos porque temos livre-arbítrio. Vejo que o saudável é admitirmos que somos ignorantes quanto a essa definição; não somos exaustivos quando o assunto é definir o amor.
Deixei o jardim e fui ao encontro do aluno de Sócrates, o famoso Platão. Aristocles, escrevendo a sua obra O Banquete, me disse, na pessoa de seu mestre Sócrates, o seguinte:
Disse então Sócrates: — Não é isso então amar o que ainda não está à mão nem se tem, o querer que, para o futuro, seja isso que se tem conservado consigo e presente?
— Perfeitamente — disse Agatão.
— Esse então, como qualquer outro que deseja, deseja o que não está à mão nem consigo, o que não tem, o que não é ele próprio e do que é carente; tais são mais ou menos as coisas de que há desejo e amor, não é?
— Perfeitamente — disse Agatão.²
Segundo Platão, amor é desejo: amamos enquanto desejamos e, possuindo o que se deseja, vão-se embora o desejo e o amor.
Um certo investidor disse algo interessantíssimo: “eu prefiro ter condições de comprar uma Ferrari a tê-la em minha garagem”. Ter liquidez para comprar, segundo ele, é melhor do que possuí-la. Por quê? Uma semana após a posse da Ferrari, os admiradores (família, vizinhos e amigos) irão se acostumar com a ideia, o implacável tédio baterá à sua porta e a angústia direcionará os seus olhos a outra ambição. Por outro lado, ver o milagre dos juros compostos é um prazer muito mais duradouro. Veja, usei um exemplo simples, mas aplicável a quaisquer situações.
Muito profundo. Porém, resolvi dar uns passos a mais no corredor da história. Ao ver o aluno de Platão e tutor de Alexandre Magno discursando no Liceu, questionei-o a respeito do amor e se há um amor verdadeiro. Ele fez uma abordagem interessante:
O amor que referiram existir no mundo sensível é um dos princípios que une as coisas, mas algo mais forte pode vencer, separando o que constituiu e juntou. Quanto ao verdadeiro amor, que é o amor intelectual, constitui, ou seja, reúne todas as coisas, inteligíveis e animais, numa união intelectual, transformando-a numa só unidade intelectual que nunca se separa, porque não há força superior que vença esse amor. Pois todo esse mundo, no seu conjunto, é puro amor, não havendo nele desentendimento, nem qualquer antagonismo.³
O filósofo de Estagira trata o amor dos sentidos como um princípio de união transitório. Ele pode ser superado por forças contrárias mais intensas, resultando na separação e desintegração daquilo que havia sido unido. Sendo o amor intelectual (verdadeiro amor) uma força indestrutível que une todas as coisas — intelectuais e vivas — em uma unidade absoluta e inseparável. Como não existe força superior a ele, o mundo intelectual que ele constitui é pleno, harmonioso e totalmente livre de conflitos ou antagonismos. Enquanto o amor sensível é frágil e sujeito à separação, o amor intelectual é eterno, absoluto e gera uma unidade indissolúvel baseada na pura harmonia.
E você, crê que Aristóteles fala do amor que conhecemos hoje?
Pulei alguns séculos (V), inclusive os estoicos, porque estava ansioso em dialogar com um neoplatônico. Aristocles foi profundo, e julguei ser conveniente falar com um filósofo cristão que fez sua teologia sobre as bases do platonismo, como bem elaborou o nosso teólogo-mor, Saulo de Tarso.
Amor Infinito, Pai de Bondade, porque tudo criou gratuitamente, porque chama, convoca, ordena e dirige com mão forte e suave. ⁴
Todos os seus textos vão apontar para um Amor que não é procurado; está em tudo e, ao mesmo tempo, em lugar algum. O Amor Infinito, no caso Deus, é: bom (bondade despida de configurações, independente da geração e do ponto geográfico — a suma bondade não caduca); Criador (está fora dos termos da criação — a fonte de tudo que há); relaciona-se com suas criaturas e tem o governo de todas as realidades. Este, portanto, é O Amor, segundo Agostinho.
De Hipona, na Argélia, me dirigi a Roccasecca, uma comuna italiana. Não percorri um pouco mais de 1000 km, mas oito séculos de distância (V-XIII). Eu não poderia perder essa conversa por nada. Estou com um frade católico, talvez o mais importante pensador do cristianismo — depois de Saulo, é claro. Assim como o seu filósofo predileto, Aristóteles, São Tomás de Aquino falou de tudo, uma erudição acima do comum. Quando lhe perguntei a respeito do amor, ele me apresentou uma tese de doutorado. Anotei um pequeno trecho:
O ato de amor sempre tende a dois objetos, a saber, ao bem, que desejamos para outrem, e à pessoa a quem o queremos, pois amar alguém é, propriamente, querer-lhe bem. Por isso, quem se ama a si mesmo, a si mesmo se quer bem, e assim, quanto pode, procura unir-se ao bem que quer. E por isso o amor se chama virtude unitiva, mesmo em Deus, mas sem composição. Porque o bem que ele para si quer não é outro senão ele próprio, que é bom por essência, como já demonstramos.⁵
Brilhantemente, São Tomás nos ensina que o ato de amar possui sempre dois alvos: o bem que se deseja e a pessoa a quem se destina esse bem. Quando uma pessoa ama a si mesma, ela busca o próprio bem e tenta unir-se a ele. É por isso que o amor é definido como uma virtude unitiva (que une). Em Deus, essa união ocorre de forma perfeita e sem divisões internas, pois o bem que Deus deseja para si é a sua própria essência, já que Ele é o próprio bem.
Perceba, não há limites para definir esse fenômeno. Eu poderia trazer centenas de autores, tecer uma enciclopédia gigantesca e ainda não esgotaria esse fenômeno. Do sudeste da Itália para os Estados Unidos.
Quero concluir essa entrevista ouvindo um poeta e filósofo de origem libanesa do século XX. Na pele de seu principal personagem, “O Profeta”, lhe pediram para falar do amor. E ele, de modo tão rico, declamou:
Quando o amor chamar, sigam-no,
Mesmo que o caminho seja íngreme e árduo.
E quando suas asas os envolverem, entreguem-se a ele,
Ainda que a lâmina oculta entre as plumas possa feri-los.
E quando ele falar com vocês, acreditem,
Embora sua voz possa lhes destruir os sonhos,
Como o vento do norte que devasta o jardim.
Pois assim como o amor vem coroá-los,
Também vem crucificá-los.
E assim como garante que cresçam,
Também faz a sua poda.
Assim como se eleva e acaricia seus ramos mais frágeis
Que ao sol tremulam,
O amor também desce até o solo
Para sacudir suas raízes tão apegadas à terra.
Como se fossem feixes de trigo, ele os junta em si.
Ele os debulha até que fiquem nus.
Ele os peneira para libertá-los da palha.
Ele os mói para que se transformem em brancura.
Ele os amassa até se tornarem flexíveis;
E então os leva a seu fogo sagrado,
Para que se tornem o pão sagrado
Do banquete sagrado de Deus.
Todas essas coisas o amor fará com vocês,
Até que conheçam os segredos de seu coração e,
Com esse conhecimento,
Se tornem um fragmento do coração da Vida.
No entanto, se por medo buscarem apenas a paz do amor
E o prazer do amor,
Então convém que cubram sua nudez
E passem longe da eira do amor,
Rumo ao mundo sem estações,
Onde terão risada, mas não todo o riso,
E terão choro, mas não todas as lágrimas.
O amor nada oferece além de si mesmo
E nada exige além de si mesmo.
O amor não tem posse, nem se torna posse;
Pois o amor em si mesmo é suficiente.
Ao amar, não se deve dizer: “Deus está em meu coração”,
Mas sim: “Eu estou no coração de Deus”.
E não pensem que podem ditar o rumo do amor,
Pois o amor, se decidir que vocês são dignos,
Ditará os seus rumos.
O amor não tem outro desejo senão realizar a si mesmo.
Caso amem e precisem ter desejos, porém,
Deixem que sejam estes:
Dissolver-se e tornar-se um rio que corre
E canta sua música para a noite;
Conhecer a dor de sentir ternura em demasia;
Ferir-se graças a seu próprio entendimento do amor;
E sangrar por vontade própria e com satisfação.
Acordar cedo com o coração alado
E agradecer por mais um dia amando;
Descansar ao meio-dia e meditar no êxtase amoroso;
Voltar para casa ao entardecer, com gratidão;
E depois dormir, com uma prece aos amados no coração
E uma canção de louvor nos lábios. ⁶
Gibran é romântico, é trágico, é sonhador, é realista, é aventureiro, é confortante e, sobretudo, humano.
Por amor, matam-se e morrem; alegram-se e sofrem; compram e vendem; adoecem e curam-se; honram e traem; confessam e mentem; edificam e destroem…
O que é o amor?
Por Daniel Santos
¹ EPICURO. Carta sobre a Felicidade (A Meneceu). Tradução de Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore. São Paulo: UNESP, 2002, p. 20.
² PLATÃO. O Banquete. Créditos da digitalização: Membros do grupo de discussão Acrópolis (Filosofia). Pará de Minas - MG: Virtual Books Online M&M Editores Ltda: 2000/2003, p. 32.
³ ARISTÓTELES-Pseudo. Obras Completas: A Teologia de Aristóteles. Tradução do árabe, introdução e notas de Catarina Belo. Lisboa: Biblioteca Autores Clássicos - Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2010, p. 145.
⁴ AGOSTINHO. Confissões: Livros VII, X e XI. Tradutores: Arnaldo do Espírito Santo/João Beato/Maria Cristina Castro-Maia de Sousa Pimentel. Covilhã: Lusofia:press. Livro: VII, 2008, p. 16.
⁵ AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. 1. ed. Tradução Alexandre Correia. Rio de janeiro: Ecclesiae, 2018, p. 279.
⁶ GIBRAN, Khalil, 1883-1931. O Profeta. tradução de Ana Guadalupe. – São Paulo: Planeta do Brasil, 2019, p. 22-27.

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