DO EVANGELHO



João 3:10 – Jesus respondeu, e disse-lhe: Tu és mestre de Israel, e não sabes isto?


Após o despertar da Reforma Protestante, surgiram figuras que traziam o que parecia ser uma novidade a respeito do Evangelho. Com isso, deixamos de ver a igreja como um império ditatorial, entendemos que sua abordagem deveria ser livre das amarras políticas e demos voz ao anônimo, isto é, todos passaram a poder pensar o Evangelho a partir de sua própria cosmovisão. As denominações cristianizadas explodiram e cá estamos nós, criando quase 4.000 novas denominações por ano. Já que somos todos irmãos, por que cada cidade não se reúne em um só lugar? Não é tudo para a glória de Deus?

Acompanhe-me…

Cada congregação acaba suprindo as vontades do Deus idealizado por seu líder. Vou ser mais claro: se você congrega em alguma instituição religiosa, significa que o comportamento do Jesus daquele líder é compatível com a sua própria visão de mundo. Logo, você dirá: “A minha igreja é bíblica, o meu pastor e suas doutrinas são cristãs”. Por favor, não estou desprezando a sua experiência comunitária! Cada um de nós tem uma história. Nicodemos sabia que havia outras perspectivas, que seu conjunto de regras estava caduco e que aquele rabino estranho não vendia mais um manual.

Eu, particularmente, vivi muitos anos em busca de manuais perfeitos, aqueles que melhor atendessem à minha ideia de Deus. Até fui mestre em alguns deles. Mas, ao olhar para o Evangelho puro e simples (é claro que li C. S. Lewis) sem os óculos institucionais, percebi que, se eu diminuísse a bagagem denominacional e descartasse os mapas institucionais, andaria melhor. 

Não considero meus irmãos institucionalizados inferiores, absolutamente. Como já disse: cada um de nós tem uma história.

E quanto aos extremos? Haverá o entusiasta que dirá: “Sem a instituição, você perderá a salvação”. E também o confuso: “Quem está em um grupo é um alienado”. Embora estejamos no século XXI, infelizmente a infantilidade bíblica não acaba, apenas muda de roupagem.

Nicodemos era mestre nas coisas terrenas e analfabeto nas celestiais. Temos mestres nessa condição hoje em dia? Não tenha dúvidas. É comum vermos doutores liderando e congregando em seitas evangélicas, eruditos cessacionistas, e acadêmicos patrocinando a vida luxuosa de pregadores turistas (sejam reformados, pentecostais ou neopentecostais), além de crentes alfabetizados comprando cursos de escatologia, entre outras coisas. E, se não bastasse, às vezes ouço pregadores inferiorizando o pobre Nicodemos. Ele entendia que a graça era negociada (somos diferentes?). Cristo o ensina que o homem não faz para ser, mas faz porque é.

Permita-me refletir sobre o novo nascimento…

Vamos usar o exemplo de Saulo. Ele detinha a formação de um pregador responsável, mas usava todas as suas informações para se justificar diante de sua religião. Esse era o velho Saulo. O novo Saulo, de modo contrário, permaneceu com a mesma bagagem, porém o seu zelo, agora, era submetido à mansidão de Cristo. Enquanto o velho Saulo matava em nome de uma tradição, o novo sofreu por amor a Cristo. E sua teologia cristã, como bem sabemos, tinha como base o que aprendera como fariseu. Suas cartas exalam o platonismo, o estoicismo, um pouco dos cínicos, o orfismo, o aristotelismo, as religiões de mistério e muitas outras filosofias do mundo helenístico.

A conversão genuína vê Cristo como a lei cumprida. A saber, uma vida que parte de Cristo é, sobretudo, a garantia de que a lei está sendo observada na íntegra. O novo nascimento, portanto, ocorre quando temos O Nazareno norteando todas as áreas da nossa existência.

Concluído o assunto da conversão… 

Por que eu disse Nazareno, e não Cristo?

Da mesma forma que Nicodemos tinha a tradição dos anciãos como chave interpretativa para saber a vontade de Deus, o crente usa o cristianismo para interpretar O Nazareno. Não sei se você sabe, mas O Nazareno, o Cristo histórico, não foi um cristão. O cristianismo nasceu no século IV a partir de um acordo político. Confira a história!

A pergunta que se faz é: a igreja e o cristianismo são a mesma coisa? A resposta é clara: não. Vou te dizer o porquê.

Eu não conheço o seu coração e não tenho a competência de afirmar se você é ou não salvo. Ser agradável para comigo e concordar com a minha teologia não te faz um discípulo de Cristo; só o Senhor conhece o homem. É possível que, em um grupo de 300 cristãos, não haja uma alma sequer regenerada. E é possível também que, dentro de uma penitenciária de segurança máxima, existam centenas de servos convertidos cumprindo a sua pena. Cada alma convertida é um membro dessa grande assembleia (a igreja).

Já o cristianismo trata-se apenas de um sistema religioso como qualquer outro. É constituído de autoridades, empresários (donos de religião), rituais, templos, disputas de poder, apoio político, acordos espúrios e negócios de família… Isso não significa que todo grupo de irmãos reunidos seja um sistema religioso cristão, longe disso! Refiro-me a uma mentalidade, a um modo de perceber, pensar e agir. Até mesmo um indivíduo isolado pode ser escravo de seu próprio sistema.

Esclarecida essa questão, voltemos às releituras…

Você percebeu que Cristo não sugeriu manuais, grupos, templos, rituais ou nada do gênero? O motivo é simples: evangelizar não é impor as minhas regras, vender um amigo imaginário ou pensar em estratégias para segurar pessoas dentro do meu recinto. Como Cristo disse: é como o vento, ninguém pode enjaular o vento. Para Nicodemos, a vida eterna dependia da obediência cega e dos deveres litúrgicos. A famosa frase de Cristo e de seus discípulos — “crê e será salvo” — era e continua sendo considerada muito "pobre"; por isso, ainda necessitamos de penitências, de reverenciar gurus, de patrocinar instituições religiosas, e a lista segue.

Diante disso, convido você a olhar para o seu conceito de fé e questionar: a sua fé subsiste na ausência de uma estrutura física e institucional, ou ela depende do formato do templo para se manter de pé? É urgente discernirmos se estamos seguindo as pegadas do Nazareno, que sopra livre como o vento, ou se estamos apenas habitando um puxadinho teológico moldado por preferências humanas. Despir-se dos manuais e das vaidades denominacionais pode ser assustador, mas é o único caminho para que o Espírito não seja enjaulado por nossas liturgias de estimação. Que possamos, finalmente, abandonar o analfabetismo celestial que tanto nos prende à terra, permitindo que o novo nascimento não seja apenas uma doutrina de púlpito, mas a própria essência de quem somos. 

Por Daniel Santos 


Nenhum comentário

COMENTÁRIOS

Tecnologia do Blogger.