EU SOU DE CRISTO?
1 Coríntios 3:5 "Pois, quem é Paulo, e quem é Apolo, senão ministros pelos quais crestes, e conforme o que o Senhor deu a cada um?"
A ideia de que Cristo pode ser compactado, embalado, rotulado e vendido por uma agência é muito antiga. Aos olhos dos consumidores daqueles dias, pelo que podemos perceber, Paulo, Apolo, Cefas e os demais teriam versões de Cristo para todos os gostos.
A clareza da mensagem do Reino precisa ser uma preocupação central do mensageiro. Eu sei que estamos vivendo dias confusos e, por mais detalhistas e didáticos que possamos ser, o público às vezes ouve apenas ruídos atabalhoados, como se sua mente não detectasse o idioma. Permita-me compartilhar uma experiência…
Certa vez, dialogando com um líder religioso, ele me perguntou a respeito da encenação de peças teatrais dentro das comunidades, e se isso feria os princípios da fé. A resposta foi simples: assim como a música, a oratória, a retórica, o prédio em que você está, a sua roupa e até mesmo a mobília que ornamenta o ambiente de culto, o teatro também é uma arte. As artes são expressões da criatividade humana dada pelo Criador, o Sumo Artista. Como poderei aceitar umas e desprezar outras?
A pergunta a se fazer é: os integrantes são convertidos e instruídos acerca disso? Será que sabem distinguir a ferramenta da obra? Qual é o teor da mensagem: é apenas entretenimento ou uma provocação convidativa a mudar de vida?
Se perdem nas coisas básicas!
Veja, existem inúmeras formas de transmitir uma mensagem, e as ferramentas estão aí para serem usadas. Basta, portanto, sabermos utilizá-las, desde que a mensagem não perca a sua essência.
Existe uma corrente sutil que está arrastando milhares de ingênuos para as suas dependências: os chamados “Pregadores Antissistema”. Eles se valem da narrativa de que a religião não presta e de que o evangelho de Cristo não é uma religião. Percebeu o contraditório? Usufruem da mesma estrutura que criticam e, mesmo assim, atacam o sistema religioso. Como podem ser contra o mercado cristão se dependem de seus patrocinadores, de likes, visualizações, shows e da fama?
Infelizmente, Paulo e seus pares foram interpretados como se fossem "artistas da fé". Logo, a predileção exposta por esses irmãos denota a imaturidade de alguns crentes de Corinto e serve como um alerta para que não cometamos o mesmo erro.
Ao assistir à dita peça de teatro, percebi que o líder, pressionado pela vaidade de seus atores, não levou em conta o mínimo de decoro. Paulo, em contrapartida, pacientemente definiu com singular maestria as noções de homem, ministro e obra. A nossa história, por não considerar essas distinções, resultou no que se conhece hoje por “igreja denominacional”.
Homem: é o indivíduo natural, sujeito a tudo o que lhe é próprio.
Ministro: é o trabalhador exercendo a vocação que lhe foi designada (não é título e tampouco carreira, como se vê atualmente).
Obra: são os resultados de sua atuação, custeados pelo Espírito Santo.
E qual foi o erro dos nossos irmãos de Corinto? Se apegaram ao homem e às suas habilidades, esquecendo-se de que o ministro é apenas um membro do “Corpo Místico de Cristo”.
Quando adentramos o sistema religioso (seja ele qual for), corremos o risco de anular a nossa identidade com Ele. Por isso é tão grave a polarização que o cristianismo institucionalizado (de Constantino à Reforma) fez com o conceito de Igreja. Você, que está lendo este texto agora, experimente pensar a igreja lembrando que Cristo, a todo momento, dizia: “Vai, a tua fé te curou”, ou “Vai, a tua fé te salvou”. Pense em Filipe despedindo o eunuco, demonstrando com isso que o seu interesse estava na liberdade em Cristo. Pense no Mestre ignorando o conceito de templo ao ensinar à mulher de Sicar que o verdadeiro adorador não necessita de espaços geográficos, rituais ou caciques. Pense no Nazareno sendo batizado por um “nazireu” do deserto — isto é, por que não Caifás, e sim João Batista?
Por favor, não estou demonizando os meus irmãos que compartilham seus dons nas comunidades, não é isso. Estou dizendo que, ao “vestir uma camisa”, “rotular-se” e fixar os pés em um sistema de alienação religiosa, faz-se do nome de Cristo um ídolo religioso.
Diferentemente de Paulo, de Cefas e de Apolo, espero ter sido compreendido. Não milito na causa dos desordeiros, dos anarquistas religiosos de plantão que tanto deformam a identidade da igreja nas consciências fracas. Minha causa está pautada no retorno à pureza e à simplicidade do evangelho, onde não há presidência, donos de sistemas (empresários da fé), esquemas hierárquicos de poder, patrocinadores, clubes, programas, ídolos ou pastores celebridades.
Por que não retornamos à antiga herança que nos caracterizava apenas como irmãos? Aqueles que são vocacionados a apascentar, que apascentem; os mestres, que ensinem; os apóstolos, que com recursos próprios vão e cumpram os seus papéis em terras remotas; os que têm o dom de evangelizar, que evangelizem… Não há necessidade de ser presa uns dos outros. Vão e glorifiquem a Deus onde estiverem.
Que Deus nos abençoe!
Por Daniel Santos

DEIXE SEU COMENTÁRIO