NASCIDO DO ESPÍRITO



João 3:8 – "O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito."

Já me disseram que o homem natural não anseia pela verdade, mas busca conforto e segurança. Na belíssima obra de Dostoiévski, Os Irmãos Karamazov, existe um dos capítulos mais profundos, célebres e impactantes da literatura mundial. Ele funciona como um poema em prosa narrado pelo intelectual e cético Ivan Karamazov ao seu irmão mais novo, o novício Aliócha: "O Grande Inquisidor".

A história se passa em Sevilha, na Espanha, durante o século XVI, no auge da Inquisição. Jesus Cristo retorna à Terra em forma humana, caminha entre o povo e realiza milagres. A multidão o reconhece e o adora, mas o Grande Inquisidor — um cardeal de noventa anos, poderoso e austero — manda prendê-lo imediatamente. À noite, o Inquisidor visita Jesus na prisão. O capítulo consiste inteiramente no monólogo do velho cardeal, pois Jesus permanece em silêncio absoluto durante todo o tempo, apenas ouvindo. E, num determinado momento, o cardeal diz:

"Sem nós, estarão sempre famintos. Nenhuma ciência lhes dará pão enquanto permanecerem livres, mas acabarão por depositar a nossos pés essa liberdade, dizendo: 'Reduzi-nos à servidão, contanto que nos alimenteis'. Compreenderão, por fim, que a liberdade e o pão da terra em abundância para cada um são inconciliáveis, porque jamais saberão reparti-los entre si! Convencer-se-ão também de sua impotência para ser livres, sendo fracos, depravados, nulos e revoltados. Tu lhes prometias o pão do céu; ainda uma vez, é ele comparável ao da terra aos olhos da fraca raça humana, eternamente ingrata e depravada? Milhares e dezenas de milhares de almas seguir-te-ão por causa desse pão, mas que acontecerá aos milhões e bilhões que não terão a coragem de preferir o pão do céu ao da terra? Será que só preferes os grandes e os fortes, aos quais os outros, a multidão inumerável, que é fraca, mas te ama, só serviria de matéria explorável?" ¹

Segundo esse cardeal, Cristo cometeu um grave erro: pregar a liberdade n'Ele a uma humanidade débil.

Nicodemos não está sozinho nisso. O homem que não sofreu a morte do "velho eu" e o novo nascimento tende a bater às portas do Velho Inquisidor. O ser religioso despreza a verdade e a liberdade porque elas nos obrigam a encarar a nós mesmos, a descer ao abismo da alma e a reconhecer que Cristo basta. Não queremos o Pão do Céu; optamos por trilhar o caminho dos famintos, fracos e desprezíveis. Mendigar à mesa dos inquisidores e ter alguém que se responsabilize por nossas almas é mais confortável. Não queremos partir o pão e compartilhá-lo entre os irmãos; preferimos as marmitas do sistema religioso.

Basta que os Inquisidores nos ofereçam Pão (pregação fast-food) e Circo (dopamina) para nos rendermos completamente às suas vontades. Conheço Inquisidores que, a partir de um simples sinal, controlam milhares de almas; basta dizerem a palavra-chave: "É a vontade de Deus!".

A alma regenerada é como o vento: não pede licença, não está presa a nada, sussurra, vai embora sem se despedir, e não pede permissão a outrem.

E você, como se encontra hoje? É livre, anseia pela verdade e já nasceu do Espírito, ou está terceirizando as suas responsabilidades a um inquisidor? O cardeal fala de dois grupos: os milhares que comem do Pão Celestial e os milhões e bilhões que não têm coragem de ir à Fonte enfrentar o seu vazio interior, suas crises existenciais e a sua insignificância.

Tenha coragem!

Por Daniel Santos 

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os Irmãos Karamazov. São Paulo: Abril Cultural, 1970. tradução: Natália Nunes e Oscar Mendes, 1970, p. 267.

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