QUEM SOU EU??? n°3



Sou um monumento esculpido na fronteira entre o mito e a história, erguido por mãos anônimas que a tradição insistiu em atribuir a grandes legisladores ou profetas do deserto, mas cujos verdadeiros arquitetos desapareceram na poeira dos séculos. Minha certidão de nascimento é um enigma: trago em minhas veias uma linguagem arcaica que evoca os dias dos patriarcas, mas minha estrutura final foi polida no calor do exílio e da reconstrução, provavelmente entre os séculos VI e IV antes da era comum, quando impérios desabavam e meu povo tentava recalcular sua própria existência.

Nasci sob o céu do monoteísmo hebraico, respirando a fumaça dos altares de Israel, mas meus pés caminham por uma terra estrangeira chamada Uz. Não sou um manual litúrgico; sou o ponto de inflexão de uma religião que ousou questionar seus próprios dogmas. Minha teologia é uma heresia sagrada que despedaça a lógica mercantilista da retribuição, a ideia confortável de que o bem gera prosperidade e o mal atrai o castigo. Eu mostro que o Divino não cabe em contratos humanos.

Surgi em um momento de profunda desilusão política e social. As muralhas haviam caído, a soberania nacional era uma vaga lembrança e os indivíduos se viam esmagados sob o peso de engrenagens imperiais que ignoravam o clamor dos justos. No tecido social da minha narrativa, exponho a fragilidade das elites, a vulnerabilidade dos marginalizados e a crueldade de uma comunidade que prefere culpar a vítima a aceitar o mistério do sofrimento infundado.

Se você me abrir, encontrará um laboratório de tortura e cura psicológica. Habito o abismo da depressão, o luto absoluto, a perda da identidade e o isolamento social. 

Sou o grito do homem que rasga as vestes diante do silêncio cósmico, confrontando a falência das palavras condescendentes dos falsos consoladores. No entanto, minha filosofia não é o niilismo; sou um debate existencialista milenar. Antecipando angústias modernas, coloco a dignidade humana e a ética em diálogo direto com a transcendência absoluta.

Não ofereço uma conversão de dogmas ou de rituais, mas uma conversão de perspectiva. No meu ápice, o homem não recebe explicações teóricas para a sua dor; ele experimenta uma teofania, um encontro avassalador com a vastidão da criação que muda o eixo de sua visão. Ele deixa de ouvir falar e passa a ver. 

Sou o livro que não resolve o enigma do sofrimento, mas resgata o direito humano de questionar o próprio Deus e, no fim, encontrar a paz na imensidão daquilo que não pode ser compreendido.

QUEM SOU EU? 

Por Daniel Santos 

Nenhum comentário

COMENTÁRIOS

Tecnologia do Blogger.